A imagem de uma menina resgatada com vida após o terremoto na Venezuela emocionou o mundo. Entenda como a Medicina Legal e a perícia médica atuam em grandes desastres.
A notícia de uma menina resgatada com vida após permanecer soterrada em meio aos escombros de um terremoto na Venezuela emocionou milhares de pessoas. O sorriso registrado no momento do resgate atravessou fronteiras porque condensou, em poucos segundos, aquilo que grandes tragédias têm de mais difícil: a espera, o medo, a incerteza e a esperança.
Mas esse sorriso também lembra algo essencial: por trás das estatísticas, existem histórias, vínculos e vidas que resistem.
Em grandes desastres, o resgate é a etapa mais urgente e visível. No entanto, por trás de cada operação que emociona, existe uma estrutura complexa, que envolve equipes de emergência, profissionais de saúde, segurança, logística, documentação e, em muitos casos, atuação pericial.
O trabalho técnico não termina quando uma vítima é retirada dos escombros. Muitas vezes, é nesse momento que começa uma nova etapa: avaliar lesões, documentar achados, identificar pessoas, preservar informações e garantir que cada caso seja tratado com segurança, método e respeito.
Por que crianças exigem atenção especial em grandes desastres?
Em terremotos, enchentes, deslizamentos, incêndios, desabamentos e outros eventos de grande magnitude, crianças estão entre as vítimas mais vulneráveis.
Essa vulnerabilidade não é apenas emocional. Ela também é física, clínica e social.
Crianças têm menor reserva fisiológica, maior dependência de adultos para deslocamento e proteção, mais dificuldade para comunicar sintomas e maior risco de desidratação, hipotermia, trauma, infecções e agravamento de condições respiratórias.
Em situações de soterramento ou confinamento, como no caso da menina resgatada na Venezuela, o risco pode ser ainda maior, especialmente quando há compressão de membros, falta de água, privação de oxigênio, ferimentos abertos ou exposição prolongada à poeira e a agentes contaminantes.
Além disso, crianças podem não conseguir informar nome completo, endereço, histórico médico, uso de medicamentos ou doenças prévias. Em grandes tragédias, esse dado aparentemente simples pode ser decisivo.
Por isso, o atendimento a crianças em desastres exige integração entre resgate, assistência médica, documentação e identificação.
O resgate salva vidas. A documentação protege histórias.
No imaginário popular, a resposta a um desastre costuma ser associada às primeiras horas: equipes retirando sobreviventes, ambulâncias, hospitais de campanha, buscas e atendimento emergencial.
Essa etapa é decisiva. Mas existe outro aspecto fundamental e menos visível: o registro técnico da ocorrência.
Quando uma vítima é encontrada, especialmente em cenários com múltiplas pessoas atingidas, informações como local exato, posição, roupas, objetos pessoais, sinais físicos, lesões aparentes, fotografias e dados fornecidos por familiares podem ser essenciais para a continuidade do cuidado, para a identificação e para a preservação de direitos.
Na Medicina Legal e na Perícia Médica, detalhes não são acessórios. São elementos de reconstrução.
Eles ajudam a responder perguntas importantes:
Quem é essa vítima?
Em que condições ela foi encontrada?
Quais lesões apresenta?
Essas lesões são compatíveis com o evento descrito?
Há sinais de soterramento, esmagamento, queimadura, intoxicação, asfixia ou trauma?
Existe necessidade de acompanhamento médico posterior?
Há repercussões funcionais, psicológicas ou jurídicas decorrentes do desastre?
Em grandes tragédias, a documentação correta pode fazer diferença para a assistência, para a investigação, para a emissão de documentos, para o acesso a direitos e para a memória das famílias.
A perícia em desastres começa antes do laboratório
Quando se fala em identificação de vítimas, muitas pessoas pensam imediatamente em DNA. De fato, a análise genética é uma ferramenta importante e, em muitos casos, decisiva.
Mas a perícia em desastres começa antes.
Começa na cena.
No cuidado com o local.
Na coleta organizada de informações.
No registro fotográfico.
Na preservação de objetos pessoais.
Na descrição das condições em que cada pessoa foi encontrada.
Na comparação entre dados obtidos após o desastre e informações fornecidas por familiares.
Protocolos internacionais de Identificação de Vítimas de Desastres, conhecidos como DVI, são utilizados em incidentes com múltiplas vítimas, sejam eles naturais ou provocados pela ação humana.
Isso significa que a identificação segura não depende apenas de uma tecnologia isolada. Ela depende de método.
Sobreviventes também precisam de avaliação técnica
Quando uma criança ou adulto é resgatado com vida, a prioridade imediata é salvar e estabilizar. Mas a avaliação não deve se limitar ao momento do resgate.
Após soterramentos prolongados, quedas, compressões ou exposição a ambientes contaminados, algumas complicações podem aparecer horas ou dias depois.
Entre elas estão lesões musculares, alterações renais, infecções, problemas respiratórios, fraturas não identificadas inicialmente, dor persistente, sequelas funcionais e sofrimento psíquico.
Em crianças, esse acompanhamento é ainda mais importante porque nem sempre elas conseguem descrever o que sentem com precisão. Muitas vezes, a mudança aparece no comportamento: medo intenso, irritabilidade, dificuldade para dormir, regressão, silêncio, choro frequente ou recusa alimentar.
A perícia médica pode ser necessária em diferentes momentos, especialmente quando há necessidade de avaliar lesões, sequelas, incapacidade, nexo com o evento, necessidade de cuidados prolongados ou documentação para fins administrativos, previdenciários, securitários ou judiciais.
Medicina Legal também é uma resposta humanitária
Em grandes desastres, a Medicina Legal não atua apenas para investigar mortes. Ela também contribui para organizar informações, proteger direitos, orientar identificações, avaliar lesões e oferecer segurança técnica em meio ao caos.
Quando uma vítima é identificada corretamente, uma família recebe uma resposta.
Quando uma lesão é documentada adequadamente, um direito pode ser preservado.
Quando um sobrevivente é avaliado com rigor, sequelas podem ser reconhecidas.
Quando uma criança é acompanhada depois do resgate, riscos tardios podem ser detectados.
Por isso, a atuação técnica em desastres não deve ser vista como uma etapa fria ou burocrática.
Ao contrário: em muitos casos, é justamente o rigor técnico que impede apagamentos, erros e injustiças.
O que o caso da menina resgatada na Venezuela nos lembra
A imagem da menina resgatada na Venezuela emocionou porque mostrou a vida resistindo em meio ao colapso. Mas também nos lembra que grandes desastres exigem muito mais do que comoção.
Eles exigem preparo, protocolos, treinamento, integração entre equipes, fluxos de atendimento, comunicação responsável e documentação adequada.
Na área médica e pericial, isso significa formar profissionais capazes de atuar com raciocínio técnico, sensibilidade humana e compreensão das consequências jurídicas e sociais de cada caso.
Porque, em uma grande tragédia, cada dado importa.
Cada registro importa.
Cada vítima importa.
E quando se trata de crianças, esse cuidado precisa ser ainda maior.
O resgate pode durar horas.
A repercussão pode durar uma vida inteira.
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O CAEPE tem coordenação da Dra. Caroline Daitx e reúne formação voltada aos desafios reais da Medicina Legal e da Perícia Médica.
Equipe de Comunicação da Dra. Caroline Daitx
Especialista em Medicina Legal e Perícia Médica
CRM/SP 194.404 | RQE 94.143


