Médica chamou paciente de “bosta”? O áudio viralizou. Mas o que ele realmente prova?
Médica chamou paciente de “bosta”? Um áudio atribuído a uma médica-residente ganhou grande repercussão nas redes sociais nos últimos dias. A gravação passou a circular associada às notícias sobre a investigação da morte de Mariana dos Santos Candido, de 41 anos, que infelizmente faleceu após complicações durante uma colonoscopia realizada em São Paulo.
Antes de avançarmos, porém, é importante fazer uma distinção.
Estamos falando de dois fatos diferentes que acabaram associados nas redes sociais.
A médica-residente a quem atribuíram o áudio atua no Hospital Municipal Prof. Dr. Alípio Corrêa Neto, e veículos de imprensa a citaram entre os profissionais relacionados à investigação do caso. Até o momento, porém, as informações públicas consultadas não permitem afirmar qual teria sido sua participação específica no atendimento que resultou na morte da paciente.
Além disso, a mulher mencionada no áudio que viralizou não é Mariana, a paciente que infelizmente faleceu.
Na gravação que circulou nas redes, a médica supostamente utiliza um termo ofensivo para se referir a outra paciente, identificada nas reportagens como Mary Elza.
Essa distinção é importante porque, com a velocidade das redes sociais, informações de episódios diferentes podem acabar reunidas em uma mesma narrativa. Neste caso, observamos publicações e comentários que podem levar à interpretação equivocada de que o áudio se referia à paciente que morreu.
Não se referia.
O caso da morte de Mariana exige respeito à paciente, à sua família e uma apuração rigorosa das circunstâncias que levaram ao desfecho.
Já o áudio atribuído à médica-residente levanta outra discussão.
Se a gravação corresponder aos fatos e ao contexto divulgado, seu conteúdo merece uma reflexão séria sobre postura e responsabilidade profissional.
Mas existe outra questão que precisa ser considerada antes de qualquer conclusão:
o que sabemos, de fato, sobre a origem e a confiabilidade desse áudio?
Essa pergunta não pretende defender nem acusar ninguém.
Ela pertence justamente ao campo da perícia.
E é a partir dela que queremos propor uma reflexão aos médicos.
Médica chamou paciente de “bosta”? O que muda se o áudio for verdadeiro
É importante não usar a discussão sobre autenticidade para desviar de uma questão igualmente necessária.
Se a perícia e as investigações confirmarem que o áudio é autêntico e corresponde ao contexto divulgado, o conteúdo da gravação merece uma análise séria.
Não estamos falando apenas de uma palavra ofensiva.
Estamos falando da forma como um profissional se refere a uma pessoa que está sob seus cuidados.
E esse episódio deixa uma pergunta desconfortável para qualquer médico:
Se hoje suas conversas profissionais se tornassem públicas, você estaria confortável com tudo o que poderia ser encontrado nelas?
Grupos de plantão, conversas entre colegas, mensagens da residência, áudios enviados rapidamente entre um atendimento e outro.
A sensação de privacidade desses ambientes pode favorecer uma linguagem que o profissional jamais utilizaria diante do paciente ou de seus familiares.
Entretanto, a questão vai além do risco de uma conversa privada tornar-se pública.
O respeito à dignidade de quem está sob cuidado médico não deveria depender da presença do paciente na sala. Tampouco deveria desaparecer quando a conversa ocorre apenas entre colegas.
A Medicina pressupõe conhecimento técnico, mas também responsabilidade, respeito e compromisso com quem confia ao profissional algo tão precioso quanto a própria saúde.
Por isso, se a gravação for autêntica e representar corretamente o contexto divulgado, a discussão não pode se limitar ao fato de o áudio ter vazado.
A reflexão precisa alcançar também a maneira como profissionais se referem às pessoas sob seus cuidados, inclusive quando acreditam estar em um ambiente privado.
Mas e se o áudio não for o que parece?
Aqui começa uma segunda discussão. E ela não anula a primeira.
Questionar a autenticidade de um arquivo não significa defender a pessoa a quem atribuíram seu conteúdo.
Da mesma maneira, considerar grave aquilo que se ouve em uma gravação não significa que podemos dispensar a análise de sua autenticidade, integridade e contexto.
Foi justamente esse o ponto levantado pela Dra. Caroline Daitx, especialista em Medicina Legal e Perícia Médica, em um vídeo publicado em seu Instagram sobre a repercussão do caso.
Antes de compartilhar ou formar uma conclusão, portanto, existem perguntas que precisam ser feitas.
O arquivo é autêntico?
Está íntegro?
Houve cortes ou edições?
Existe conteúdo anterior ou posterior ao trecho divulgado?
É possível determinar sua origem?
A voz realmente pertence à pessoa a quem atribuíram a gravação?
São perguntas que talvez não caibam em um comentário de rede social.
Mas cabem — e precisam caber — em uma análise pericial.
ASSISTA AO VÍDEO DA DRA. CAROLINE DAITX NO INSTAGRAM
Médica chamou paciente de “bosta”? Compartilhamento não é prova
A pergunta “médica chamou paciente de ‘bosta’?” não pode ser respondida apenas pela repercussão da gravação.
Para afirmar a autoria e compreender o significado de um arquivo, é preciso considerar sua origem, autenticidade, integridade e contexto.
Quando ouvimos uma gravação, nosso cérebro tenta rapidamente atribuir sentido àquilo que recebe. Reconhecemos uma voz, interpretamos uma frase e construímos uma narrativa.
A perícia, por outro lado, precisa percorrer um caminho diferente.
Ela não começa perguntando:
“Em quem eu acredito?”
Começa perguntando:
“O que é possível demonstrar?”
Nesse sentido, a origem do arquivo, sua integridade, eventuais alterações, o contexto da gravação e outros elementos técnicos podem ser relevantes para determinar o valor daquele material como evidência.
Milhares de compartilhamentos não tornam um áudio autêntico.
Da mesma forma, a indignação coletiva não substitui uma investigação.
A internet trabalha no tempo do compartilhamento. A perícia trabalha no tempo da evidência.
E existe um problema importante nesse desencontro de velocidades: uma reputação pode sofrer consequências muito antes de uma investigação chegar às suas conclusões.
A inteligência artificial tornou essa discussão ainda mais importante
Em 2026, há mais uma variável nessa equação.
Ferramentas de inteligência artificial tornaram cada vez mais acessível a criação e a manipulação de conteúdos digitais, inclusive de voz.
Isso não significa que exista qualquer evidência de uso de inteligência artificial para criar ou manipular o áudio deste caso.
Não estamos fazendo essa afirmação.
O ponto é outro.
Hoje, ouvir uma voz que parece pertencer a determinada pessoa já não deveria ser, isoladamente, suficiente para encerrar uma discussão sobre autenticidade.
Arquivos digitais podem ser verdadeiros. Também podem sofrer edições, aparecer sem o contexto completo ou circular de maneira diferente daquela em que foram originalmente produzidos. Além disso, tecnologias atuais permitem criar conteúdos sintéticos com alto grau de verossimilhança.
Portanto, diante de uma situação com possíveis repercussões éticas, profissionais ou judiciais, a análise técnica importa mais do que a aparência de autenticidade.
E se amanhã fosse a sua voz?
Talvez aqui esteja uma das reflexões mais importantes para o médico.
Imagine que amanhã uma gravação atribuída a você comece a circular.
Ela pode ser verdadeira ou estar incompleta. Também pode ter sido retirada de contexto, ter sofrido alguma alteração ou, em outro cenário, nem sequer ter sido produzida por você.
Enquanto essas hipóteses ainda estão sob investigação, porém, o conteúdo pode alcançar milhares de pessoas.
A pergunta deixa de ser apenas:
“Eu disse isso?”
E passa a ser também:
“O que tecnicamente pode demonstrar se eu disse ou não?”
É nesse ponto que compreender o raciocínio pericial deixa de ser algo restrito ao momento de um processo.
Passa a fazer parte da compreensão dos riscos da própria atividade profissional.
O WhatsApp voltou ao centro das discussões envolvendo médicos
Curiosamente, este não foi o único episódio recente em que o WhatsApp apareceu no centro de uma discussão envolvendo médicos.
Em outro caso que analisamos aqui no blog do CAEPE, uma mãe publicou nas redes sociais que havia sido bloqueada no WhatsApp pela pediatra da filha.
Naquela situação, a discussão era outra: quais são os limites da comunicação entre médico e paciente e como estabelecer regras claras para o uso desse canal?
Médico é obrigado a responder WhatsApp? O caso da pediatra reacende um debate importante
Agora, a questão é diferente.
Estamos falando de uma comunicação que teria ocorrido em ambiente privado e que, depois de circular publicamente, passou a integrar uma narrativa nas redes.
Os dois episódios são distintos.
Ainda assim, ambos mostram uma transformação importante na prática médica:
o ambiente digital também passou a fazer parte da gestão de risco profissional.
O que esse caso ensina aos médicos?
Esse caso permite mais de uma reflexão — e talvez seja justamente por isso que tenha provocado tanta discussão.
A primeira diz respeito à própria essência da relação médico-paciente.
Se o áudio for autêntico e corresponder ao contexto em que foi divulgado, a forma como uma paciente teria sido mencionada merece uma reflexão séria.
O respeito à dignidade de quem está sob cuidado médico não deveria depender da presença do paciente na sala, nem desaparecer quando a conversa acontece apenas entre colegas.
Além disso, a linguagem utilizada para se referir aos pacientes, inclusive em ambientes profissionais privados, também diz respeito à postura esperada de quem exerce a Medicina.
Mas existe uma segunda reflexão, muito própria do nosso tempo.
E se o áudio estiver incompleto ou fora de contexto?
Aplicativos de mensagens fazem parte da rotina profissional. Médicos discutem condutas, trocam informações e se comunicam com equipes por meios digitais.
Entretanto, esses registros podem sair do ambiente em que surgiram. Uma mensagem isolada pode perder elementos importantes da conversa original, enquanto um arquivo digital pode exigir análise técnica para esclarecer sua origem, integridade e autenticidade.
Além disso, os avanços tecnológicos ampliaram as possibilidades de edição e produção de conteúdos sintéticos.
Novamente, isso não significa que tenha ocorrido qualquer manipulação neste caso.
Significa que não podemos presumir a autenticidade de um arquivo digital apenas porque ele parece verdadeiro.
Por isso, as duas reflexões precisam caminhar juntas.
Se o conteúdo for autêntico, precisamos discutir ética, respeito ao paciente e responsabilidade profissional.
Se houver dúvida sobre sua origem, integridade ou contexto, precisamos discutir prova digital, preservação dos registros e análise pericial.
Em nenhum dos cenários a resposta deveria ser simplesmente compartilhar primeiro e perguntar depois.
Para o médico, talvez esteja aí o aprendizado mais importante: a comunicação digital exige tanto responsabilidade sobre aquilo que efetivamente se diz quanto conhecimento sobre aquilo que pode, um dia, ser apresentado como tendo sido dito.
É justamente nesse ponto que o raciocínio pericial se torna tão importante. Ele nos ensina a não confundir repercussão com prova, aparência com autenticidade e uma narrativa já formada com aquilo que as evidências realmente permitem concluir.
Pensar como perito também é saber não concluir cedo demais
A perícia não deveria começar com a escolha de um lado.
Em vez disso, ela começa com perguntas.
O que aconteceu?
Quais evidências existem?
Essas evidências são confiáveis?
O que elas efetivamente demonstram?
E o que ainda não é possível concluir?
Esse talvez seja um dos aprendizados mais importantes deste caso.
Por isso, diante da pergunta “médica chamou paciente de ‘bosta’?”, o raciocínio pericial exige algo que as redes sociais nem sempre oferecem: cautela antes da conclusão.
Podemos reconhecer a gravidade de uma alegação sem transformá-la imediatamente em fato comprovado.
Ao mesmo tempo, podemos exigir respeito absoluto aos pacientes sem abrir mão do rigor na análise das evidências.
Da mesma forma, podemos discutir responsabilidade profissional sem substituir investigação por julgamento nas redes sociais.
No CAEPE, médicos aprendem a desenvolver esse raciocínio e a compreender como condutas, documentos, registros e evidências podem ser analisados em situações de conflito.
Porque aprender perícia não é apenas aprender a atuar depois que um problema aconteceu.
É aprender a enxergar a própria prática com os olhos de quem, um dia, poderá precisar analisá-la.
Conheça os cursos do CAEPE clicando aqui.


