Da busca ao reconhecimento: o papel da perícia após o terremoto na Venezuela

Perita médico-legista realiza análise forense após um grande desastre, ilustrando o trabalho de identificação das vítimas em operações de perícia médico-legal.

Entenda como atua a perícia médico-legal após grandes terremotos e por que a identificação das vítimas é essencial para a Justiça, as famílias e os direitos humanos.

Quando um grande terremoto acontece, o mundo acompanha com atenção as imagens das equipes de resgate em busca de sobreviventes.

Nas primeiras horas, bombeiros, profissionais da saúde e voluntários enfrentam uma corrida contra o tempo para salvar vidas. É um trabalho que mobiliza esperança e costuma receber ampla cobertura da imprensa.

Mas existe outra etapa, menos conhecida pela população e igualmente essencial.

Quando as possibilidades de encontrar sobreviventes se encerram, começa um trabalho silencioso, altamente técnico e profundamente humano: identificar as vítimas e devolver respostas às famílias.

É nesse momento que a perícia médico-legal assume um papel fundamental.

As primeiras 72 horas são decisivas

Cinco dias após o terremoto que atingiu a Venezuela e deixou milhares de desaparecidos, um novo tremor voltou a ser registrado no país, dificultando ainda mais as operações de busca e resgate.

Segundo a médica Caroline Daitx, especialista em Medicina Legal e Perícia Médica, as primeiras 72 horas representam o período de maior possibilidade de sobrevivência.

“Esse período é conhecido como janela de ouro porque as chances de sobrevivência diminuem rapidamente em razão da desidratação, da falta de oxigênio e da síndrome do esmagamento. Enquanto houver possibilidade de encontrar sobreviventes, o resgate é prioridade absoluta. Somente quando uma área é considerada sem chances de vida ela é oficialmente transferida para a perícia.”

A Dra. Caroline Daitx explica esse conceito em um vídeo publicado em seu Instagram, mostrando por que as primeiras 72 horas são consideradas decisivas e quando a atuação da perícia médico-legal passa a ser fundamental após grandes desastres.

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Quando a ciência entra em ação

Ao contrário do que muitos imaginam, o trabalho da perícia não começa com a remoção do corpo.

Antes disso, todo o cenário é cuidadosamente documentado.

São registradas fotografias, posição da vítima, os objetos encontrados e demais evidências que poderão contribuir para sua identificação e para a reconstrução dos fatos.

Esse trabalho segue o protocolo internacional Disaster Victim Identification (DVI), elaborado pela Interpol e utilizado em grandes catástrofes em diversos países. Seu objetivo é padronizar a atuação das equipes forenses e garantir segurança científica e jurídica durante todo o processo.


Como as vítimas são identificadas?

Embora muitas pessoas associem esse processo apenas ao exame de DNA, a identificação científica utiliza diferentes métodos reconhecidos internacionalmente.

Os três métodos primários previstos pelo protocolo DVI são:

  • Impressões digitais;
  • Odontologia legal;
  • Análise de DNA.

Segundo Caroline Daitx, esses métodos possuem validade jurídica e oferecem elevada segurança, especialmente quando o reconhecimento visual não é possível.


O DNA é importante, mas não trabalha sozinho

O exame de DNA é considerado o padrão ouro em situações envolvendo corpos fragmentados ou em avançado estado de decomposição.

Entretanto, sua realização depende de laboratórios especializados e pode demandar tempo, principalmente quando há grande quantidade de vítimas ou quando as amostras apresentam degradação.

Por isso, outros recursos tornam-se fundamentais.

A odontologia legal frequentemente permite identificar vítimas por meio da comparação entre registros odontológicos realizados em vida e exames realizados após a morte.

Quando os corpos apresentam elevado grau de destruição ou fragmentação, a Antropologia Forense auxilia na estimativa de sexo, idade, estatura e identificação de possíveis traumas por meio da análise dos ossos.


Um trabalho que reúne diferentes especialistas

Grandes desastres exigem atuação multidisciplinar.

Participam desse processo médicos-legistas, odontolegistas, antropólogos forenses, papiloscopistas, especialistas em DNA, radiologistas, fotógrafos forenses e diversos outros profissionais.

Ao mesmo tempo, outra etapa igualmente importante acontece junto às famílias.

Fotografias, prontuários médicos, registros odontológicos, radiografias, cicatrizes, tatuagens e outras características individuais ajudam a comparar os dados coletados antes da morte (ante-mortem) com aqueles obtidos durante a perícia (post-mortem).


Muito além da investigação

Para Caroline Daitx, esse trabalho vai muito além da produção de laudos.

“Trata-se de uma questão de direitos humanos. Identificar corretamente cada vítima permite que as famílias realizem o sepultamento, iniciem o processo de luto e tenham acesso a direitos legais, como emissão da certidão de óbito, seguros e herança.”

Cada identificação representa mais do que um procedimento pericial.

Ela devolve identidade, história e dignidade às vítimas.

Também oferece às famílias algo indispensável para iniciar o processo de reconstrução após uma tragédia: respostas.


Quando a perícia devolve um nome

Em grandes desastres, a atuação da perícia médico-legal vai muito além da investigação criminal.

Ela integra a resposta humanitária, assegura direitos, preserva evidências e garante que cada vítima seja identificada com precisão, respeito e dignidade.

Enquanto as equipes de resgate trabalham para salvar vidas, a perícia trabalha para devolver nomes, histórias e identidade àqueles que partiram.

Em momentos de profunda dor, a ciência também cumpre uma missão profundamente humana: devolver identidade, oferecer respostas às famílias e garantir que nenhuma vítima seja reduzida a um número.

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Equipe de Comunicação – Dra. Caroline Daitx
Especialista em Medicina Legal e Perícia Médica
CRM/SP 194.404 | RQE 94.143