Caso Henry Borel: o que a perícia médica realmente ajudou a esclarecer

Caso Henry Borel e o papel da perícia médica na análise de lesões, nexo causal e prova pericial.

Monique recebeu perdão judicial. Mas o que a perícia médica concluiu no Caso Henry Borel?

Caso Henry Borel: o que a perícia médica realmente ajudou a esclarecer?

Meta description: O Caso Henry Borel voltou ao centro do debate após o julgamento de 2026. Entenda o papel da perícia médica, do nexo causal e da Medicina Legal na reconstrução dos fatos.

Monique recebeu perdão judicial. Mas o que a perícia médica concluiu no Caso Henry Borel?

O Caso Henry Borel voltou às manchetes após o julgamento realizado em junho de 2026. A condenação de Jairinho, a responsabilização de Monique Medeiros por omissão e a concessão de perdão judicial à mãe da criança reacenderam discussões jurídicas, sociais e emocionais em todo o país.

No entanto, para quem atua ou pretende atuar na área pericial, existe uma pergunta igualmente importante:

Qual foi o papel da perícia médica na reconstrução dos fatos?

Mais do que acompanhar um caso de enorme repercussão nacional, médicos e estudantes de Medicina Legal têm a oportunidade de observar, na prática, como conceitos como trauma, nexo causal, compatibilidade lesional e interpretação de evidências podem influenciar uma investigação criminal complexa.

Por que a perícia médica se tornou uma das provas centrais do caso?

Em processos que envolvem morte sob investigação, a perícia médica possui uma função fundamental: analisar os vestígios biológicos e determinar se eles são compatíveis com as versões apresentadas ao longo do processo.

No Caso Henry Borel, os laudos periciais ocuparam posição central desde o início das investigações.

Segundo informações divulgadas pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), foram identificadas múltiplas lesões corporais, incluindo traumatismos e hemorragia interna. O material divulgado pelo órgão menciona 23 lesões distribuídas pelo corpo da criança.

A partir desses achados, a discussão deixou de ser exclusivamente jurídica e passou a depender fortemente da interpretação médico-legal das evidências.

É justamente nesse ponto que a perícia exerce sua principal função: transformar vestígios em informação técnica capaz de auxiliar a Justiça.

A função da perícia não é confirmar versões

Um dos maiores equívocos sobre a atividade pericial é imaginar que o perito existe para validar a narrativa de uma das partes.

Na realidade, a função da perícia é testar hipóteses.

Em uma investigação de morte violenta, o trabalho do médico-legista envolve perguntas como:

  • Qual foi o mecanismo das lesões?
  • Os achados são compatíveis com a versão apresentada?
  • Existe relação causal entre as lesões e o óbito?
  • A cronologia dos fatos é compatível com os vestígios encontrados?

A resposta a essas perguntas exige metodologia, conhecimento técnico e análise criteriosa dos elementos disponíveis.

Por isso, a perícia não atua para acusar ou defender. Atua para esclarecer.

O papel das lesões na reconstrução dos fatos

A descrição de lesões é apenas uma parte do trabalho pericial.

O desafio maior é compreender como essas lesões foram produzidas.

Durante o julgamento, foram amplamente discutidos os achados relacionados a traumatismos cranianos, hemorragia interna e lesão hepática.

Segundo peritos ouvidos no Tribunal do Júri, e conforme reportado pela imprensa, o conjunto dos achados foi considerado incompatível com a hipótese de acidente doméstico.

Em Medicina Legal, a distribuição, intensidade e associação entre diferentes lesões ajudam a reconstruir a dinâmica dos eventos.

Por esse motivo, a pergunta mais importante nem sempre é “qual lesão foi encontrada?”, mas sim:

“Qual mecanismo foi capaz de produzir esse conjunto de lesões?”

Trauma, hemorragia e nexo causal

Outro conceito central discutido no Caso Henry Borel foi o nexo causal.

Na prática pericial, estabelecer o nexo causal significa verificar se determinado evento foi capaz de produzir o resultado observado.

De acordo com reportagens publicadas durante o julgamento, os peritos apontaram que Henry apresentava hemorragia interna associada a múltiplos traumatismos, incluindo lesão hepática.

A partir desses elementos, a análise médico-legal buscou responder uma questão fundamental:

As lesões identificadas foram capazes de causar ou contribuir para a morte?

Essa etapa é uma das mais importantes em qualquer investigação envolvendo óbito.

Sem nexo causal adequadamente estabelecido, não existe conclusão pericial consistente.

A diferença entre causa da morte e circunstância da morte

O Caso Henry Borel também ajuda a compreender uma distinção frequentemente confundida fora do ambiente pericial.

A causa da morte corresponde ao mecanismo médico responsável pelo óbito.

Já a circunstância da morte busca esclarecer em que contexto aquele evento ocorreu.

Em outras palavras, são perguntas diferentes:

  • O que causou a morte?
  • Como aquela morte aconteceu?

A Medicina Legal trabalha exatamente na intersecção dessas duas análises.

Por isso, o trabalho do perito vai muito além da descrição anatômica das lesões.

Ele envolve interpretar evidências e contextualizá-las dentro da dinâmica dos fatos investigados.

A discussão sobre iatrogenia e manobras de reanimação

Um dos debates técnicos que surgiu durante o julgamento envolveu a possibilidade de algumas lesões terem sido produzidas durante as manobras de ressuscitação realizadas no hospital.

Essa é uma discussão clássica da Medicina Legal.

Procedimentos médicos podem gerar lesões. Entretanto, cabe ao perito diferenciar:

  • lesões traumáticas prévias;
  • lesões decorrentes do atendimento médico;
  • alterações produzidas após a morte;
  • achados sem relevância causal.

Segundo os peritos ouvidos no júri, a hemorragia interna observada indicava que a lesão hepática havia ocorrido em vida, afastando a hipótese de que o quadro fatal tivesse sido causado exclusivamente pelas manobras de reanimação.

Independentemente da discussão processual, esse ponto demonstra como a análise pericial exige conhecimento técnico aprofundado sobre fisiopatologia, trauma e mecanismos de lesão.

Quando a ciência encontra o tribunal do júri

Casos de grande repercussão apresentam um desafio adicional para a perícia médica.

Enquanto a ciência trabalha com evidências e critérios técnicos, o tribunal do júri também envolve fatores emocionais, sociais e jurídicos.

Por isso, não basta produzir um bom laudo.

É necessário comunicar adequadamente os achados para magistrados, promotores, advogados e jurados que não possuem formação médica.

Em muitos casos, a capacidade de explicar conceitos complexos de forma clara é tão importante quanto a própria análise técnica.

O legado pericial do Caso Henry Borel

Independentemente das discussões jurídicas que ainda possam surgir após o julgamento, o Caso Henry Borel já ocupa um lugar relevante na história recente da Medicina Legal brasileira.

O caso trouxe ao debate temas fundamentais da prática pericial:

  • análise de lesões traumáticas;
  • nexo causal;
  • investigação da causa da morte;
  • diferenciação entre trauma e iatrogenia;
  • interpretação de provas médico-legais;
  • comunicação da ciência no ambiente judicial.

Mais do que um caso criminal de grande repercussão, trata-se de um exemplo de como a perícia médica auxilia a reconstrução científica dos fatos e contribui para decisões fundamentadas.

Conclusão

O Caso Henry Borel demonstra que a Medicina Legal vai muito além da descrição de lesões.

O trabalho pericial envolve interpretar evidências, avaliar hipóteses concorrentes e estabelecer relações causais com base em critérios científicos.

Em cenários marcados por intensa repercussão social e narrativas divergentes, a prova pericial continua exercendo uma função essencial: oferecer ao sistema de Justiça elementos técnicos para compreender o que aconteceu.

O perito não é responsável pelo veredito. Mas é responsável por fornecer os elementos científicos que permitem que ele seja construído.

O perito é a ponte entre a ciência médica e a decisão judicial.


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Fontes

Cobertura jornalística do julgamento realizada por veículos de imprensa nacionais durante as sessões do Tribunal do Júri de maio e junho de 2026.

Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) – Memorial Vidas Marcadas: Henry Borel.

g1 Rio. “Houve um homicídio por espancamento”: perito descarta que morte de Henry Borel foi durante atendimento em hospital. Publicado em 29/05/2026.

Fantástico/TV Globo. “Depoimentos da babá de Henry Borel e de ex-enteada de Jairinho foram decisivos para a condenação”. Publicado em 07/06/2026.

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Fontes

  • Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) – Memorial Vidas Marcadas: Henry Borel.
  • g1 Rio. “Houve um homicídio por espancamento”: perito descarta que morte de Henry Borel foi durante atendimento em hospital. Publicado em 29/05/2026.
  • Fantástico/TV Globo. “Depoimentos da babá de Henry Borel e de ex-enteada de Jairinho foram decisivos para a condenação”. Publicado em 07/06/2026.
  • Cobertura jornalística do julgamento realizada por veículos de imprensa nacionais durante as sessões do Tribunal do Júri de maio e junho de 2026.