Em um acidente aéreo, saber quem estava a bordo não significa que a identificação das vítimas esteja automaticamente concluída.
A lista de passageiros pode indicar quem deveria estar na aeronave. Documentos e objetos pessoais também fornecem informações importantes. Mas a confirmação oficial da identidade depende da comparação técnica entre dados obtidos durante os exames periciais e informações existentes sobre aquela pessoa em vida.
Em situações nas quais os corpos sofreram trauma intenso, carbonização ou fragmentação, esse processo pode envolver diferentes áreas das Ciências Forenses, como Medicina Legal, Papiloscopia, Odontologia Legal, Antropologia Forense e Genética Forense.
Como funciona a identificação de vítimas?
A identificação de vítimas de desastres é internacionalmente conhecida pela sigla DVI, de Disaster Victim Identification. A INTERPOL estabelece orientações para esse tipo de trabalho.
De forma geral, o processo envolve informações de dois grupos:
Dados ante mortem: informações existentes sobre a pessoa antes da morte, como impressões digitais, prontuários odontológicos, radiografias e outros registros relevantes.
Dados post mortem: informações obtidas durante o exame do corpo ou dos restos humanos, como impressões digitais, características odontológicas, achados antropológicos, material genético, próteses, cicatrizes e tatuagens.
A identificação resulta da comparação entre esses dados.
Isso não significa que todo acidente aéreo, principalmente quando envolve poucas vítimas, mobilize formalmente a mesma estrutura utilizada em um desastre de grandes proporções. Os princípios de organização, documentação e comparação, porém, ajudam a compreender a lógica da identificação pericial.
Quais métodos são usados para identificar vítimas de acidentes aéreos?
A escolha depende das condições dos corpos e da existência de registros que permitam comparação.
Entre os principais métodos estão impressões digitais, características odontológicas e DNA.
Impressões digitais e Papiloscopia
Quando as condições permitem a obtenção das impressões digitais, elas podem ser comparadas com registros disponíveis.
Em determinadas circunstâncias, a Papiloscopia possibilita uma identificação confiável e relativamente rápida.
Odontologia Legal
Os dentes e outras estruturas da arcada dentária apresentam características individuais e podem resistir a condições que comprometem outros tecidos.
Prontuários odontológicos, radiografias e outros registros produzidos durante a vida podem ser comparados com os achados post mortem.
Por isso, a Odontologia Legal pode ter papel importante na identificação de vítimas.
Antropologia Forense
A Antropologia Forense pode contribuir especialmente diante de ossos, fragmentação ou danos extensos.
A análise auxilia na caracterização dos restos encontrados e, em determinadas situações, na separação de fragmentos, sempre considerando as possibilidades e limitações do material disponível.
DNA e Genética Forense
A análise genética pode ser empregada quando outros métodos não são suficientes ou quando as condições dos restos exigem esse tipo de investigação.
O DNA obtido de uma amostra pode ser comparado com material de referência da própria pessoa ou, quando apropriado, com amostras de familiares biológicos.
O procedimento depende da qualidade das amostras disponíveis e pode demandar mais tempo.
Documentos, tatuagens e reconhecimento da família são suficientes?
Roupas, documentos, objetos pessoais, cicatrizes e tatuagens podem ajudar a orientar a investigação. No entanto, em geral, esses elementos isoladamente não substituem os métodos técnicos utilizados para a confirmação da identidade.
O mesmo cuidado vale para o reconhecimento visual.
Em mortes violentas, traumas podem alterar a aparência. Além disso, o reconhecimento ocorre em um momento de intensa carga emocional para os familiares.
Por isso, o reconhecimento visual isolado pode não oferecer a segurança necessária para uma identificação oficial.
Por que a identificação oficial não deve ser antecipada?
Uma lista de ocupantes indica quem deveria estar na aeronave. Ela não demonstra, por si só, qual corpo ou fragmento corresponde a cada pessoa.
Durante um impacto, documentos e objetos podem se deslocar. Dependendo das características do acidente, restos humanos também podem sofrer danos ou se misturar.
Uma identificação antecipada e incorreta pode gerar consequências graves, como erros na entrega ou no sepultamento dos restos mortais, problemas em registros oficiais e sofrimento adicional para as famílias.
Por isso, na identificação de vítimas de acidentes aéreos, velocidade é importante, mas não pode substituir a segurança técnica.
O objetivo da perícia não é apenas estabelecer quem provavelmente era aquela pessoa. É demonstrar essa identidade por meio de métodos e comparações tecnicamente adequados.
Embora a identificação seja conduzida por equipes especializadas, compreender a lógica desse processo é relevante para profissionais de saúde de diferentes áreas. Em acidentes e situações críticas, o atendimento, o registro de informações e a articulação entre equipes integram o saber médico que pode contribuir para a análise posterior, respeitadas as atribuições e os protocolos de cada profissional.
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Caroline Daitx e Equipe de Comunicação
Especialista em Medicina Legal e Perícia Médica
CRM/SP 194.404 | RQE 94.143


